sexta-feira, 3 de junho de 2011

A polícia perto da comunidade

Uma polícia integrada com a comunidade: é a melhor característica para descrever o projeto de policiamento comunitário da Brigada Militar de Bagé. Quando começou, em 2005, o programa atendia apenas o bairro Ivo Ferronato, porém notou-se a necessidade de ampliar para outras localidades que também enfrentam dificuldades. Hoje já são 31 bairros assistidos diariamente pelo policiamento comunitário.
O projeto foi iniciado e se desenvolve baseado na premissa de que a polícia e a comunidade devem trabalhar juntas para, com maior facilidade, identificar, priorizar e resolver os principais problemas como crimes, tráfico, desordem, ocorrências da Lei Maria da Penha, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos moradores dos bairros atendidos.
Para fazer parte do projeto comunitário, o policial deve ter um perfil específico para que haja uma melhor integração com a comunidade. Portanto, é realizado pelos mesmos policiais que fazem parte do Pelotão Mirim e do PROERD. Os sargentos Vilagran e Mesquita, e os soldados Viçosa, Modesto, Filandro, Rocha e Gerusa já são capacitados para o convívio com a comunidade.
Objetivo
Realizando um trabalho de prevenção primária de delitos, dentro do projeto Polícia Cidadã, duas vezes por mês são realizadas reuniões com os presidentes ou líderes comunitários dos bairros.
Conforme explica a capitão Sulenir, oficial dos direitos humanos e comandante das políticas sociais, identificando os problemas da sociedade, os policiais podem dar o auxilio necessário ou realizar encaminhamento para setores responsáveis.
- O objetivo é dar assistência, interagir com a comunidade. Não são atendidos somente delitos, fizemos até encaminhamento de outras demandas como as relacionadas à saúde ou alimentação, explica a capitão
Reconhecimento
A realização do projeto no município vem das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) que existem há mais tempo no Rio de Janeiro e São Paulo.
Com o objetivo de melhorar sempre mais o projeto, a capitão Sulenir realizou curso de direitos humanos, em Porto Alegre e foi selecionada para duas vagas reservadas para o Rio Grande do Sul em um curso de policiamento comunitário em São Paulo.
Em 2010, a Brigada Militar de Bagé recebeu um prêmio estadual de melhor projeto comunitário, pelo acompanhamento contínuo de casos.
Parceria
Agora o policiamento comunitário conta com uma equipe multidisciplinar para os acompanhamentos sociais. Em um determinado dia, os policiais são acompanhados de duas psicólogas e um assistente social. Antes dessa parceria, o problema era identificado no local e os próprios policiais buscavam a melhor forma de ajudar as pessoas, porém diante dos problemas e necessidades de encaminhamentos diversos foi assinado um convênio com o núcleo de mediação comunitária da URCAMP, que cedeu duas estagiárias de psicologia, e o secretário do trabalho e assistência social Omar Ghani disponibilizou o assistente social para realizar encaminhamentos diversos para pessoas em situação de vulnerabilidade social. A partir da assinatura deste convênio, feita em 14 de maio deste ano o programa passou a se atuar como Patrulha Comunitária Integrada.
Trabalhos
Os casos assistidos pelo programa não são casos de crimes ou delitos. Este é um programa com uma filosofia preventiva que atua na origem dos problemas da sociedade, principalmente os relativos a políticas públicas.
- O trabalho do policial comunitário é fazer com que o cidadão se sinta a vontade e confie na polícia, afirma a capitão.
Entre as ações, está a de esclarecer e restaurar os direitos da população, com o policial trabalhando como um interprete da lei para as pessoas.
Palestras preventivas são realizadas nos bairros, pessoas em casos de vulnerabilidade social são atendidas de acordo com a necessidade e é feito o acompanhamento de casos atendidos pela polícia, principalmente de Maria da Penha.
Após a análise dos casos e da identificação do problema, quando a situação social não pode ser resolvida pelos policiais, o caso é encaminhado para o núcleo de mediação ou assistência social.
O patrulhamento é realizado tanto de dia quanto a noite e apóia o Policiamento Escolar, outro projeto social da Brigada Militar.
Acompanhamento
Quando um delito é identificado, por exemplo, os crimes domésticos que se enquadram na Lei Maria da Penha, a vítima é conduzida até a delegacia onde é feito o pedido de medida protetiva. Com o procedimento acabaria o trabalho da Brigada Militar com esta vítima, porém, no projeto, o acompanhamento continua. Muitas vezes as mulheres vítimas de agressão ficam inseguras e são coagidas pelo companheiro a reatar o relacionamento, o que em várias situações acontece por medo. Mesmo após o registro, o policial comunitário volta a ver a situação em que se encontram as vítimas, se houve reincidência dos companheiros e dão o suporte necessário com a ajuda das psicólogas.
Os casos acompanhados são de ocorrências atendidas pelo quartel da BM, os encaminhados pela promotoria, e os que chegam até a secretaria da mulher. Atualmente várias pessoas recebem o acompanhamento e a presença da polícia na casa das vítimas dá mais segurança para esta e desencoraja o agressor a voltar a praticar o delito.
Relação com a comunidade
Dentro das zonas de patrulhamento, atuam com mais freqüência onde a incidência de crimes é maior, nestes bairros quando há necessidade é implantado outras ações de prevenção, como palestras, PROERD e Pelotão Mirim.
O sargento Vilagran afirma que a polícia comunitária é mais dura com o crime do que a polícia normal, pois age com a prevenção e não repressão, fazendo com que a comunidade acredite no papel da polícia é mais fácil combater o crime, pois assim, os próprios moradores sentem-se mais seguros em fornecer informações importantes sobre o que está irregular no bairro. Com isso, são passados subsídios para o pelotão atuar de forma direta no problema.
Para preservar a segurança dos moradores, sempre é mantido o sigilo absoluto da fonte quando existem denúncias. Este tipo de atitude da população ajuda no desenvolvimento eficaz do trabalho policial que precisa de informações para os planejamentos de operações que visam melhorar a segurança da sociedade.
Muitas ocorrências são resolvidas com as informações da população, e quando vemos uma situação que parece fugir da normalidade já sabemos onde agir, isso é sentimento próprio da profissão, enxergamos tudo com um olhar policial, explica o sargento.
Os líderes comunitários ajudam bastante o trabalho policial, pois visam qualidade de vida para o seu bairro. A capitã Sulenir cita os senhores Josué e Jandir, que são aliados da polícia em todas as situações.
Exemplo
Um dos casos acompanhados pelo policiamento comunitário é da família da dona Jenifer Pinto Panicq, moradora do bairro Malafaia. O marido de 52 anos é paciente oncológico e está acamado a mais de um ano. Era com o salário de pedreiro que a família era sustentada, porém ao ficar doente não pode mais trabalhar e não conseguiu encaminhar aposentadoria. Hoje, Jenifer arca com os gastos de saúde, todas as despesas da casa e sustenta dois filhos, de nove e dois anos vendendo pastéis na UNIPAMPA e no inverno fazendo tricô sob encomenda. Ela ainda recebia o auxilio bolsa família, porém por perder a data do recadastramento teve o benefício anulado há seis meses.
Ontem a Brigada Militar levou o assistente social Jonas Rutz para a primeira visita à família de Jenifer.
-Eu não espero só pelos outros, eu me viro pra sustentar minha família, mas essa ajuda é muito importante, a população precisa de algumas coisas. Até minha conta de luz eles já pagaram e agora tenho esperança de que consigam recuperar meu bolsa família, comenta emocionada a moradora assistida.
Ao sair da casa de dona Jenifer, o destino foi o PROCIBA para fazer o recadastramento da família para voltar a receber o auxilio do governo federal e a psicóloga foi levada até a casa da família para fazer o cadastro pessoalmente.
-O meu papel é dar suporte para pessoas em situação de vulnerabilidade social, neste caso existia uma pendência e o auxilio não foi liberado, vamos tentar resolver isso, explica o assistente social.
Experiência
De acordo com os soldados Viçosa e Rocha, este é um trabalho que exige dedicação por lidar com os problemas da população. Eles já realizaram trabalhos de mediação em que o problema foi resolvido só com a polícia e em outras situações foi necessária a intervenção do núcleo de mediação comunitária.
- É um trabalho muito interessante, entrar nas casas das pessoas, ter a confiança da comunidade, ver o que eles precisam e poder ajudar, comenta o soldado Viçosa.
Segundo o soldado Rocha eles fazem contato com postos de saúde, escolas e presidentes de bairros para atender as solicitações e antes de ir para os bairros cumprem uma planilha de locais definidos para freqüentarem.
-Temos uma planilha para seguir, mas nada impede que a rota mude conforme a necessidade, explica Rocha.
Na maioria das vezes o problema é resolvido sem a necessidade de registrar ocorrência, somente com a mediação comunitária. É uma nova maneira de pensar a atividade policial, ela acontece na prevenção desde a origem do problema e na assistência a quem necessita.

01.06.11 - Camila Tavares
Fonte:http://www.folhadosulgaucho.com.br/?p=6&n=10318

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